Minhas Memórias do Egito - o giro do derviche

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Eu sabia que no Egito pode-se encontrar bailarinos rodopiantes em qualquer casa noturna próximo ao Khan el Khalili e que nem todos fazem parte dessa linhagem de místicos tão antigos quanto o próprio Islã.
Mas, aquela paisagem pintada a minha frente sob uma noite enluarada  levantou-me memórias dos belíssimos poemas de Jalal Ud Din Rumi...fundador da ordem dos derviches Mevlevi da Turquia.

"Se teu conhecimento sobre o fogo vem só de ouvir dizer,
então providencie ser cozido pelo fogo,
não há nenhuma certeza interna até que você queime."

(Jalal Ud Din Rumi - Divã de Shams de Trabriz)


A palavra Darwishe, em árabe quer dizer na soleira da porta, ou seja aquele que está prestes à adentrar nas altas esferas do conhecimento, ou mesmo, se seguirmos a tradição egípcia antiga, a palavra porta remete à entrada para o mundo dos mortos. Acredito que todos saibam que o título original  do Livro dos Mortos, era a A Porta, referindo-se a entrada do defunto para o mundo dos deuses, espíritos e demônios. Enfim, o derviche está ligado à morte embora tenha muita relação com os elementos da vida terrena.

O giro do derviche é uma oração, dançar representa orar para Deus, em nome de Deus e em torno de Deus.
"la illa'llah illaha" - não há deus além de Deus - cantavam os músicos em obsessiva repetição, enquanto o rapaz erguia umas das saias para alto de sua cabeça.


O giro em sentido anti-horário provoca uma energia em espiral que esquenta o eixo interno, a coluna vertebral causando o suador ritual do transe.  Enquanto o gira o derviche representa o eixo entre o céu e a terra, o intermediário entre os dois mundos, aquele que está na soleira da porta, queimando....Hu


Entregamo-nos ao êxtase.


)O(
Isis Zahara

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Minhas Memórias do Egito - um noite no deserto

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A lua cheia de ontem me fez recordar a última viagem ao Egito, em janeiro deste ano, onde pude desfrutar de uma lua também cheia em meio ao deserto do Sahara.
O ônibus abandonou a estrada e cruzou diretamente pelas areias, tocava Amr Diab no radio e como era noite, fazia frio.
Não havia nada do lado de fora a não ser pequenas ondas de massa fofa arenosa e a lua, destacada no céu mais negro que já vi em todas as noites de minha vida. Tão logo passaram-se os quarenta minutos de viagem e o motorista parou para vermos o céu.
Estava em grupo de turistas russos, sendo somente eu brasileira e meu namorado holandês. Caminhamos um pouco ao redor e contei três estrelas cadentes, lembrei dos Reis Magos, história contada pelos meus avós sobre a estrela de Belém. O guia, por saber de meus estudos sobre a cultura árabe contou-me histórias de como os beduínos guiam entre as constelações e acreditam apenas no que está escrito no céu e nada do parecer ser entre as areias.
Mais uma hora e chegamos ao acampamento, entre camelos, burricos e cabras uma mesa baixa com mezze pronto nos aguardava.
Almofadões sobre tapetes listrados, vestígios de areia em todos os cantos, senti-os na boca também, ao terminar de mastigar um falafel.
Abaixo daquele luar majestoso deram início aos tambores, um ayubi bem tocado, o DUM carregado e grave, um jovem rapaz deu início à Tannura, era um derviche.
Sua saia reproduzia um caleidoscópio colorido durante os intermináveis giros, na cabeça o turbante branco e vermelho representando a união dos elementos masculino e do feminino.
Assistir a um derviche em pleno deserto em noite de luar foi, deveras muito especial, na poesia mística de Rumi, talvez o  mais conhecido de todos os derviches, quem dança representa os grãos de areia girando em torno da luz.
Havia uma espécie de mágica, a atmosfera prateada, as rodadas de chá vermelho, o cheiro da chicha e o brilho das brasas. Senti por alguns segundos que fazia parte daquela ambiente onde sagrado e profano se misturavam de forma adocicada e apertei as sandálias contra o chão, um gesto simbólico de abraçar aquela terra longínqua e ao mesmo tempo tão íntima.

Bismilah
)O(

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Felicidade Interna Bruta, saiba mais e alie a Dança do Ventre a essa filosofia

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Descubra!

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A música no Egito Antigo - algumas notas

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  Estamos falando da música árabe, mas apenas como pontuação, gostaria de levantar algumas informações sobre o Egito, na antiguidade. Acredito que o passado tenha influenciado bastante na atualidade, mesmo que toda a estrutura que conhecemos hoje remete à tradição dos árabes. 

  No passado, entre médio e novo Império, quando o Egito desfrutou seu apogeu, acredita-se que, assim com a dança, a música teve grande importância na vida dos egípcios.

   Desde os momentos sagrados no interior dos templos e rituais religiosos até no dia a dia da vida profana. Como parte dos instrumentos musicais, conhecemos o Sistru, a Harpa, as flautas de bambo, pandeiros, oboés e uma espécie de Rebab ainda encontrado nas manifestações populares das margens do Nilo.

Flautas
Foram os primeiros instrumentos utilizados pelos egípcios, em formato duplo ainda é utilizado atualmente.

Harpa
Desde o início de sua história os egípcios desenvolveram um instrumento de cordas feito a partir da arma de caça, o Arco. Contendo mais de dez cordas, feitas de tripas de animais, a harpa era tocada por homens e mulheres da alta sociedade. Ao longo da história o formato de arco foi incrementado por esculturas e desenhos geométricos entalhados sobre sua madeira ou cobertos com peles de animais sagrados, como o leopardo, por exemplo.

Alaúde ou Rebab ?
Feito de cabaça e com um pescoço bem longo decorado com fitas, um intermediário entre o Alaúde e o Rebab fazia parte do conjunto instrumental dos antigos, podia ser tocado com os dedos ou através de uma palheta.




Sistrus
Uma espécie de chocalho, composto de diferentes metais era dedicado aos deuses e instrumento sagrado utilizado pelos sacerdotes.





Pandeiros
No Egito os instrumentos de percussão tiveram diferentes formatos, o mais comum eram os quadrados, utilizados em festas religiosas e populares do Novo Império.

 

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Dança do Ventre, Música e instrumentos

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Tradicionalmente a música composta para o repertório de Dança Oriental (Dança do Ventre Egípcia) segue algumas etapas estabelecidas e que a caracterizam como progressão Baladi Awadi ou progressão musical Baladi Taksim.

Cada momento tem suas características próprias, determinados instrumentos musicais de se destacam mais e a interpretação da bailarina também precisa seguir determinadas regras. Embora tudo seja aparentemente estruturado, a dança baladi taksim é baseada no improviso. Não há meios de coreografa-lo do contrário não é considerado Baladi Taksim.


TAKSIM - Momento melódico onde se destacam a flauta, acordion, violino ou piano. Geralmente um intrumento melódico se destaca mais e não há percussão. A bailarina tem como regra a seguir as notas da melodia e geralmente isso se faz com ondulações, oitos, redondos e movimentos de braços. 

SAKAT (Chamada e Resposta) – no segundo momento o percussionista inicia as primeiras dedilhadas no Derback e isso acontece como uma conversa com a melodia.


 

TET SARI (ritmos) - A terceira etapa marca o estabelecimento de alguns ritmos, como Maksoun, Fallahi ou Masmoudi e com isso o percussionista começa a se destacar e a bailarina torna-se mais extrovertida. 

TABLA (Drum Solo) - A quarta etapa é uma brincadeira com acentos, a bailarina executa determinados movimentos e posturas que se enquadram exatamente no acento final da frase ritmica e isso conduz o repertório para o solo de percussão.

HASSAN YA GHOULI (canções conhecidas) – Pode entrar nesta etapa final alguma canção folclórica ou conhecida por todos e que pode ser cantada. É um momento folclórico por assim dizer e pode incluir dança com Bastão.

 
AFLAH (Final) – Momento de despedida onde toda a orquestra toca junto e a bailarina se destaca com movimentos amplos. 



Instrumentos Musicais 

 
 
1- Snujs ou sagat - Em copta: sa’gu’t, significa castanholas de metal utilizadas, no passado, para espantar os maus espíritos, equivalentes menores eram colocados nas cinturas das sacerdotisas com o mesmo objetivo ritual.

2 -ZamrO aerofano de lingueta dupla, conhecido como zukra, zamr ou gaita, acompanha o daff, pandeiro nas canções folcloricas.

3 - Alaúde - Pode-se encontrar conjuntos folclóricos que utilizam vários tipos de alaúde de ponta e de arco, pela influência grega e das outras ilhas do Mediterrâneo encontra-se um alaúde de arco com três a quatro cordas que foi introduzido na Europa e deu origem ao rabel, antepassado do violino, por fim o violino moderno foi aceito pelos árabes como substituto do rebab antigo.

4- KanoonDescende da antiga harpa egípcia, o Kanoon corresponde a um trapecio de madeira com cordas, equivalente ao Santoor grego, foi introduzido na Europa durante o Século XII, e tornou-se precursor do piano occidental.

5- Daraouka, Derback ou Tabla -É um instrumento largamente utilizado em todo o mundo árabe, sendo ele que marca o ritmo no resto do grupo musical, tanto na música tradicional como na moderna. É feito de barro cozido e têm duas aberturas (a superior é de maiores dimensões do que a inferior). A Darabouka admite variedades de forma e tamanhos e a sua decoração pode ser de incrustações de fragmentos diminutos de concha e osso, ou motivos geométricos orientais. Todas as bailarinas recorrem ao Derback quando querem transmitir as frases percussivas da música, este instrumento pode se utilizado sozinho, pois é o que estabelece o diálogo mais importante e direto com o corpo.

6- RiqO pandeiro é o principal instrumento da música folclórica árabe do norte da África, leva vários nomes como: daff, tar, bendir ou mazhar. Podem ser circulares ou romboidais, mas compõem-se todos de uma só pele com tiras prendendo-a embaixo,  possuem platinelas como o daff .












)O(
isis zahara






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Um pouco sobre a história da Música árabe - 01

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Inspirada em textos de Henry Geoger Farmer, musicólogo britânico e orientalista (1882-1965) sobre a estrutura da música oriental, deixo aqui algumas notas, apenas introduzindo o tema a desenvolver ao longo da semana.




Os povos árabes preservaram e traduziram não só os manuscritos da Filosofia Grega, mas também seus escritos sobre a música e podemos admitir que a estrutura musical grega influenciou e muito na tradição da música clássica árabe.

A música clássica se desenvolveu nos palácios e ambientes urbanos, tornando-se cada vez mais rebuscada ao longo dos séculos, principalmente com a inserção de elementos do extremo Oriente, em que as notas podem ser divididas em sub-notas.

Na época das Cruzadas, a Europa adquiriu vários instrumentos musicais dos árabes e alguns deles fazem parte atualmente da Orquestra Ocidental.

Também os califados do Magreb, em contato com Portugal e Espanha, desenvolveram estruturas musicais e ritmicas estilizadas e pode -se dizer  miscigenadas, o estilo: "nuba".


Enquanto os centros urbanos desenvolviam uma estrutura rebuscada,  os beduínos mantiveram a tradição vocal, cantos acompanhados apenas por palmas, bastões percurtidos no chão, tendo apenas o Hebab,  um instrumento de corda muito rústico, provavelmente ancestral do alaúde e parecido com o nosso Berimbau. O Hebab pode ter uma corda, duas ou, no máximo, três.


Mas, tanto nos recintos urbanos quanto entre as caravanas a métrica poética  estava baseada na repetição das estrofes, um ciclo rítmico e repetitivo que veio posteriormente acrecentar-se também nos cantos religiosos.

Pode parecer, em um primeiro momento, que a música árabe é simples  por não usar a poliritimia mais comum no Ocidente, em que todos os instrumentos se fundem em uma única harmonia, entretanto, o seu aspecto singular se deve ao fato de que cada instrumento possui um tom especial e se destaca dos demais, isso favorece ao improviso no meio das composições e não é tão simples quanto parece....
 
Encontre mais obras pela wikipedia:

  • Farmer, Henry George (1912). The Rise & Development of Military Music. London: W. Reeves.
  • Farmer, Henry George (1925). The Arabic Musical Manuscripts in the Bodleian Library: A Descriptive Catalogue With Illustrations of Musical Instruments. London: W. Reeves.
  • Farmer, Henry George (1925). The Arabian Influence on Musical Theory. London: H. Reeves.
  • Farmer, Henry George (1925). Byzantine Musical Instruments in the Ninth Century. London: Harold Reeves.
  • Farmer, Henry George (1929). A History of Arabian Music to the XIIIth Century. London: Luzac & Co.
  • Farmer, Henry George (1930). Historical Facts for the Arabian Musical Influence. Ayer Publishing. 
  • Farmer, Henry George (1931). The Organ of the Ancients, From Eastern Sources (Hebrew, Syriac and Arabic). London: W. Reeves.
  • Farmer, Henry George (1939). Studies in Oriental Musical Instruments. Glasgow: The Civic Press.

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Instrumentos para música clássica árabe, by Maha

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Dança do Ventre - detalhes importantes

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A mestra Samira Tamir (pela Gilded Serpent Magazine)  ensinando a estalar os dedos, à maneira árabe, quem nunca observou os dedinhos da Nelly Fouad ?

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A Dança no Antigo Egito

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“A morte está hoje diante de mim,
como a cura para um doente...
como o perfume de mirra...
como o aroma das flores de lótus...
como o odor depois da chuva...
como o desejo ardente de um homem
de retornar ao seu lar,
após longos anos de cativeiro...”

O canto da Harpista (em WILSON,pag45)


No Egito antigo, a dança comemorava, ritualmente, a experiência de enxergar a vida através da morte, visto que a exaltação do próprio fim os auxiliava a desfrutar melhor suas vidas. Essencialmente agricultores, os egípcios dividiam o ano em três estações: a semeadura, a seca e a colheita, cada período justificado pelas condições naturais e pela cosmogonia.
            A dança oferecia uma concepção da vida como um todo, pontuada pelo nascimento e pela morte, preenchia, portanto, uma função sagrada para os egípcios, e estava vinculada também à existência profana. Todas as realidades vitais eram consagradas pela dança conferindo um poder pulsante, sagrado e vivo.
            Havia três categorias de dançarinas: a profissional dos vilarejos, a dançarina dos palácios e a sacerdotisa.
            A primeira, pertencente às famílias da sociedade egípcia, conjugava as manifestações sagradas e profanas através da sua dança, nas tabernas ou festas religiosas, construía com seu corpo o imaginário fantasioso das imagens totêmicas, misturando deuses e demônios dentro da oposição entre sexualidade vital e a morte.

A festa religiosa mais conhecida referia-se a uma deusa de fertilidade, Bastet,[1] a divindade gato protetora das mulheres. Herodotos teve a oportunidade de presenciar e descrever estes rituais. Nesta festa se dirigiam, Nilo abaixo, inúmeras barcas lotadas de homens e mulheres, mas conferia às mulheres a atenção do ritual.

            Algumas portavam sistros[2] que não cessavam de repicar coreadas pelas palmas e cantos dos demais, algumas mulheres continuavam suas ondulações, vibrações, outras insultavam as vizinhas com uma histérica gritaria, ao mesmo tempo em que dançavam, incansáveis, levantando suas saias com provocações eróticas e gesticulando de forma obscena.
            O historiador grego Herodotos descreveu o ritual realizado anualmente em Busiris, onde segundo ele, estava o maior templo de Isis:

São conduzidos (as imagens de Osíris) através do povoado, por mulheres; um flautista vai na frente e as mulheres o seguem cantando hinos a Dioniso (Osíris).” (Herodotos II, 59)

A segunda categoria de dançarina morava no palácio faraônico, funcionária ou escrava/concubina, comprada, ou capturada como uma prenda de guerra do exército faraônico. Sesóstris III, faraó que marcou o período da expansão militar egípcia também denominado Médio Império,  gravou a respeito de si próprio, em uma estela de pedra:

“Capturou todas as mulheres e os súditos do reino africano, queimando o gado e a plantação.”

Além das escravas vindas da Síria, Mesopotâmia e até dos confins da India, Sesóstris trouxe escravas núbias, muitos caras na época pois, dançavam freneticamente vibrando bustos e quadris de uma forma diferente, que provavelmente apelidamos, nos dias de hoje, de shimmy.
Nos palácios, concentravam mulheres de diversas culturas e com elas diferentes tradições culturais.
Dessa fusão, um estilo de dança, que até hoje não sabemos exatamente como era, pois o que nos restou foram afrescos e descrições de viajantes. Acredita-se que as dançarinas interpretassem sob a melodia de harpas, flautas e triângulos de metal, enquanto as vozes chorosas das recitadoras, declamavam desenfadados versos de amor.
É possível também que estas mesmas profissionais foram precursoras da almeh, uma espécie de trovadora medieval a ser descrita mais adiante.

A terceira categoria de dançarina, temida até mesmo pelo faraó era a sacerdotisa, consagrada aos deveres mais sérios da sociedade egípcia, como por exemplo, manter a paixão dos deuses. A dança mística expressava os amores entre Isis[3] e Osíris de forma sensitiva, artística e erótica. Tratava-se de uma pantomima mística, em que as sacerdotisas personificavam a deusa e realizava os amores à Osíris frente ao sacerdócio masculino também personificado.

Com efeito levam tirsos, gritam e se agitam como os possuídos por Dioniso quando celebram suas orgias.” [4]


Através do mito de Osíris[5], os grandes rituais religiosos conjugavam os dois extremos da existência: a vida e a morte, numa fusão entre Fortuna[6] e Fado[7], como forma de justificar que seus corpos eram tão efêmeros, quanto, a vegetação do Nilo.
Os funerais funcionavam como grandes espetáculos, cortejos gigantescos constituídos de dançarinas, músicos, acrobatas, sacerdotes com máscaras zoomórficas e muitas carpideiras. Durante a comemoração da morte e ressurreição de Osíris, as dançarinas sagradas ondulavam seus corpos, possuídas por uma espécie de êxtase, abatiam-se como palmeiras ao vento, vibrando seus corpos perfumados e revelando através da transparência de suas roupas, as belezas do corpo.
Durante as festas profanas a morte recordava os egípcios da brevidade da vida, como novamente descreveu Herodotos, num banquete onde o anfitrião trazia um boneco de madeira, finamente talhado, dentro de um esquife  e cantava:

"Olha para isso!  Bebe e diverte-se,
pois será assim depois de morto."[8]

Essa filosofia de Carpe Diem, fazia do calendário egípcio um amontoado de festas sobre a vida dos deuses e sobre o gozo diário da existência.
Sem uma moral rígida acerca das mulheres, a educação feminina compreendia o estudo das artes do amor manifestas através da dança e do canto. A mulher desfrutava do amor matrimonial, ondulando, voluptuosamente, os braços e o ventre sem timidez. Num papiro estão escritas as seguintes frases:


"Se sois discreto,
Tu encerrarás em tua casa e amarás nela
A tua mulher, alimentarás bem, a adornarás,
Porque os vestidos de seus corpo, os perfumes
Serão a alegria de sua vida."

           
Haviam festas privadas nos recintos familiares, dependendo da classe social a casa poderia comportar uma troupe com cem profissionais, entre bailarinos e músicos, já nas moradas mais simples, as próprias filhas do anfitrião dançavam para seus convidados.

 


HERODOTOS. Historia {Tradução Mário da Gama Kury} Editora da Universidade de Brasília, Brasília.1985.
MASPERO, G. Au temps de Ramsés et d'Assourbanipal. Libraire Hachete. Paris.1927.
MASPERO, G. Histoire Ancienne des Peuples de L'Oriente. Libraire Hachete.Paris. 1912.
PLUTARCOOs Misterios de Isis e Osíris. São Paulo. Nova Acrópole do Brasil Centro Editora, 1981.

 

[1] Aspecto de Isis, entidade protetora das mulheres e de sua sexualidade. Era venerada na forma de gato ou leopardo.
[2] Instrumento musical: espécie de tridente com moedas
[3] consorte de Osíris, Princípio feminino criador, semelhante à Deméter grega.
[4] PLUTARCO, 1981.p. 6.
187)
[5] Osíris, deus da fertilidade, dos mortos, como Urano é um deus castrado, feminino.
[6] Vida, Eros,ritmo cômico de celebração da vida.
[7] Tânatos, a morte, o indivíduo e o seu destino,
[8]HERODOTOS. Historia.1985.p.78.

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 A dança no Egito Medieval - A Ghaziya

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(Este artigo é parte do livro Dança do Ventre - O corpo como território da Deusa, Isis Zahara)
 
Durante o período um grupo específico de  dançarina profissional, ficou conhecido pela palavra ghaziya (plural:ghawazee). Esse termo é de origem cigana e era utilizado pelos grupos ciganos, para identificar a dançarina de uma determinada tribo que emigrou da Índia até o Egito, em fins do Império Romano.
 
Muitas lendas floreiam sobre as heranças ciganas no Egito, o que se sabe, com precisão, é que a dança desta ghazyia correspondia, no passado, a uma prática ritual da deusa Kali; e por sua vez, Kali é uma divindade ctônia anterior ao panteão hindu, seu ritual consistia na prática de danças eróticas femininas com aceleradas e compulsivas vibrações do abdômen. Atualmente, a Raks al Sharq considera essa substancial influência cigana, entretanto, os ciganos não foram os únicos responsáveis pela disseminação desta forma de dança, pois a herança dos rituais de fecundidade estava presente na memória cultural do povo egípcio.
 
No Egito a ghaziya era uma mulher pobre, de vida nômade, que dançava em troca de pouco dinheiro e um pedaço de pão azedo. Seus tesouros eram suas roupas detalhadamente adornadas com as moedas que ganhava como forma de assegurar suas riquezas. Nada poderia ser guardado distante de seu corpo, por isso sobrepunham as saias, os lenços e as jóias. Essas mulheres transitavam pelos vilarejos, oásis e acampavam nas margens do Nilo, em áreas periféricas como Esna e Luxor. Trabalhavam conciliando dança, prostituição, vidência e como parteiras e carpideiras. Os símbolos antigos da Boa Fortuna, fecundidade e Fado ainda sustentavam a imagem dessas mulheres.
Por serem auto-suficientes economicamente, ficaram conhecidas por: não cederem ao domínio masculino sobre suas vidas, o que nem sempre foi verdade, pois elas casavam com os homens de suas tribos, que trabalhavam, por sua vez, como músicos e atuavam como sendo seus patrões.
Executavam uma espécie de dança ondulatória com evidentes interações lascivas, como descreve a citação abaixo:

    “Criava-se um certo grau de excitação sexual em virtude da música e das vozes palpitantes das cantoras, das letras eróticas, das drogas e do álcool, das jóias rutilantes, das tornozeleiras e braceletes     se entrechocando, dos ventres nus, dos sorrisos cintilantes, dos cabelos soltos. Caudais mulheres, vinho e música corriam não só nas cortes reais e nos bazares, mas também nas casernas.”[1]

Com a islamização da sociedade egípcia em 640 d.C., a aceitação da dança tornou-se uma das grandes contradições da doutrina islâmica, que discrimina a mulher como guardiã da honra de sua família e tendo como ponto básico, a proibição de exibir o corpo na presença de estranhos. As dançarinas tornaram-se as únicas mulheres que transgrediam a lei religiosa, aos poucos os hábitos foram sincretizados, ainda que de forma marginalizada, até que todos os ciganos tornaram-se também muçulmanos.
Durante esse processo de transição a nova religião incorporou antigos hábitos pagãos. Sempre muito rigorosas em suas devoções, as ghawazee passaram a participar dos mouleds[2], festas religiosas que comemoram o aniversário de um santo muçulmano acontecendo em seus túmulos.

Durante o século XIII, surgiu uma Ordem islâmica mística, conhecida atualmente por Sufismo;[3]  Os integrantes do sufismo eram chamados de dervixes[4], utilizavam a dança como oração, cantavam e declamavam poemas místicos.
Existia uma semelhança entre a condição da dançarina ghazyia e a do dervixe. Ambos poderiam ser de qualquer condição social e poderiam ir aonde quisessem, ninguém indagava suas origens e seus destinos. Esta tolerância, de certa forma, protegeu a arte ghazyia  até o domínio britânico.

A natureza amorosa de suas danças fazia delas notoriamente impudicas:

                        “extremamente indiscretas em sua linguagem, principalmente em insultos.” [5]

Apreciavam a sensação de constante enebriamento utilizada nas descrições de Richard Burton, através da palavra árabe kayf , um saborear da existência animal”, e que era provocado pelo ópio e haxixe. Essa sensação de constante enebriamento foi bem retratada nas pinturas orientalistas e disseminou o estereótipo da indolência, da preguiça oriental.
Porém, suas danças não tinham nada de embriaguês passiva como mostram as gravuras, ao contrário, eram dotadas de uma impressionante expressividade dramática. A ghazyia falava com todo o seu corpo, diversas vezes envolvendo a mímeses, contorções acrobáticas, equilíbrio de taças[6] cheias de bebida e utilização sincronizada, com a dança, de instrumentos de percussão.
A partir de 1860 surgiram várias descrições da dança das ghawazee, denominadas por Raks al Nahal. Escritores comentam o isolamento e o controle de diferentes partes do corpo,movimentos circulares do torso e aceleração contínua dos quadris.
O pintor inglês James ST. John descreveu uma dança ghazyia numa pequena vila próximo às pirâmides:

“Segurando uma taça, cheia de água de rosas, a gawazyia executou os mais rápidos e difíceis movimentos, repetindo o que as anteriores já haviam feito, porém, não foi nada trivial.
Ela dançava com tanta naturalidade, sem derramar uma só gota da água, como se a taça estivesse vazia. Depois, de um tempo, ela parou e num instante ficou de frente para um dos rapazes que a assistia, envolveu-o, delicadamente, com seus braços, sem tocá-lo, recuou por um momento e continuou sua dança. Mais tarde, ela parou e, de frente para ele, respingou, vagarosamente, algumas gotas da água sobre as roupas do rapaz,beijou seus lábios e saiu retornando ao interior da tenda.”[7]

As ghawazee aparecem nas pinturas, sempre nas ruas, em apresentações públicas e em cenários notavelmente pobres.  Numa gravura de 1870, duas jovens executam sua arte para dois homens, aparentando ser ocidentais, que as assistem discretamente, enquanto uma terceira com o rosto coberto à maneira beduína[8]  toca uma darabucka[9]. Uma das jovens segura um bastão e parece girar, a outra tem a boca aberta e os olhos fechados dando a idéia de que estaria cantando. O cenário é uma construção simples com tetos de junco semelhantes aos casebres da periferia do Egito.
Algumas ghawazee trabalhavam como musicistas, aliás, os instrumentos como o: daff[10] ,a darabukka e o rebab[11] foram de domínio exclusivamente feminino.
Atualmente os ciganos egípcios são islâmicos e vivem, em sua grande maioria, do turismo.


[1] RICE,1991.p.56.
[2] Tais festas eram promovidas pelas confrarias islâmicas, as zawias. Estes centros comerciais são vestígios do Império Romano na África. As confrarias correspondem ao Islã popular divergente do erudito.
[3] Sufismo:movimento islâmico místico, sua  filosofia remete a elementos femininos, como a rosa, a dança com saias e cálices cheios de vinho, numa alusão ao útero cheio de sangue.
[4] Existem os dervixes  que  se organizam em ordens religiosas, participam de cultos num ambiente privado, outros são andarilhos, vivem nas ruas com mendigos.
[5]RICE, ,1991. p. 97.
[6]Semelhante a dança de Pomba-Gira com taças.
[7] ST. JOHN,1845. p. 274.

[8]Tribos nômades do deserto, excluídos socialmente dos centros urbanos.
[9] Instrumento de percussão confeccionado com pele e cerâmica.
[10] Pandeiro árabe
[11] antepasado da rabeca, violino de duas cordas.

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